O estágio, a pandemia e o acesso dos jovens ao mundo do trabalho

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O ano de 2020 ficará marcado na memória de cada um de nós em razão da pandemia e das consequências devastadoras geradas na saúde física, mental e financeira de grande parte da população mundial.

No Brasil, como em outros países, a situação da educação só se agravou com a necessária paralisação das instituições de ensino. O UNICEF estima que 44 milhões de estudantes ficaram longe das salas de aula no país.

Embora parte das escolas tenham tentado compensar o afastamento físico com atividades virtuais, ainda são desconhecidas a eficácia e as consequências dessa nova prática na educação dos estudantes.

Não é de hoje, no entanto, que a baixa escolarização, a precária educação básica e a deficiente formação profissional de grande parte dos brasileiros impedem-nos a se candidatarem a vagas de qualidade no mercado de trabalho, dificultando seu acesso a uma boa qualidade de vida e atrasando o desenvolvimento do país.

De maneira geral, quanto maior for a escolarização e melhor a formação profissional, maior é a remuneração e menor é o desemprego. Em épocas de crise, como a que vivemos agora, os menos preparados acabam sendo afastados prioritariamente.

Conforme o ranking internacional da educação, publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no final de 2019, o Brasil aparece entre os 20 piores países, inclusive atrás dos vizinhos latinos Uruguai, Chile e México. Se o estudo considerasse apenas os alunos de escolas privadas, o Brasil estaria em 11°lugar, demonstrando a deficiência de nosso ensino público.

De acordo com o levantamento ‘ Education at Glance”, elaborado pela OCDE, apenas 21% dos jovens brasileiros entre 25 e 34 anos concluíram o Ensino Superior. O estudo aponta que essa é a média mais baixa entre os países analisados na América Latina: Argentina (40%), Chile (34%), Colômbia (29%) e Costa Rica (28%). A média entre os países pertencentes à OCDE é de 44%.
Já a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua-2018), revelou um dado preocupante sobre a juventude do país. Entre os 47,3 milhões de pessoas de 15 a 29 anos, 23% não estudam e nem trabalham. Fazem parte da chamada geração nem nem. Qual o futuro deles?

A pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra que a taxa de desemprego de jovens de 18 a 24 anos, no primeiro trimestre de 2020, ficou em 27,1%, bem acima da média geral do país, de 12,2%.
Esse fenômeno não ocorre só no Brasil. Além do período de mudanças, tanto físicas como psicológicas, que marcam a transição da adolescência para a vida adulta, prováveis causas desse fenômeno estão relacionadas à inexperiência profissional, natural para quem está se iniciando no mundo do trabalho, e à baixa escolarização dos jovens nessa faixa etária.

Com o intuito de diminuir essas dificuldades naturais de ingresso dos jovens no competitivo e complexo mundo do trabalho, existe a figura legal do estágio, que prevê incentivo fiscal às empresas que oferecem oportunidades aos jovens estudantes a partir dos 16 anos de idade.

O Estágio é um programa que tem por objetivo preparar o jovem para o mundo do trabalho, oportunizando a vivência em atividades na sua área de formação. Os estágios, devidamente supervisionados, realizados pelos estudantes em organizações privadas e públicas, aliam a teoria e a prática, propiciando aprendizados pessoal e profissional. Proporcionando a inclusão produtiva, é um meio de garantir a cidadania para milhares de estudantes beneficiados.

O estágio, além de ampliar o conhecimento dos estudantes, promove o desenvolvimento de habilidades e atitudes que serão imprescindíveis para o exercício de sua futura profissão, colaborando também para a definição de sua área profissional.

É inquestionável que, com o advento da pandemia a partir de meados de março de 2020, ocorreu uma diminuição significativa do número de jovens em estágio. No Rio Grande do Sul, através do CIEE-RS, ocorreu redução de 22% no número de estagiários.

No entanto, com o futuro aquecimento da economia, espera-se um significativo retorno na ampliação de vagas para os jovens, embora haja questões ainda sem respostas. Qual será o ritmo da retomada? Quando a situação chegará ao nível anterior à pandemia? Acredito que só teremos a retomada de níveis similares de contratação em 2021.

É inegável que a tecnologia da comunicação on line, virtual, em rede, está, cada vez mais, fazendo parte da rotina das pessoas e das organizações. O home office, hábito já incorporado por muitas empresas por força do Covid 19, e com possibilidades de permanência, ainda que parcial, será também aplicado aos estágios dos estudantes?
A supervisão presencial e o aprendizado prático em situações reais de trabalho ficaria como no caso de estágios virtuais? Essas questões talvez sejam um dos grandes desafios das Organizações. Penso que uma das possibilidades seria de aprendizado híbrido, sendo realizado parte do estágio virtualmente e parte presencialmente nas empresas.
No entanto, na hipótese de existirem também estágios exclusivamente online, poderiam ocorrer em qualquer lugar do país ou do planeta, pois as fronteiras físicas e distâncias que hoje impossibilitam estudar em um lugar e estagiar em outro seriam suprimidas. Acredito que poderá ser a nova tendência e irá proporcionar um aprendizado mais universal e qualificado para os jovens.

Embora a criação de inúmeros novos cursos de nível superior, observa-se que, nas últimas décadas, algumas áreas de atuação têm permanecido em alta no ranking que o CIEE-RS realiza anualmente de áreas com maior colocação de estagiários no mercado. Na última pesquisa, de 2019, verifica-se que 56% dos colocados de nível superior foram dos cursos de Pedagogia (25%), Administração (17%) e Direito (14%). Os demais 44% dos colocados estavam distribuídos em dezenas de outros cursos.

Cada vez fica mais claro para a juventude seu papel de protagonista na sua formação profissional. Inúmeras alternativas de capacitação profissional são oferecidas, muitas gratuitamente, para promover o conhecimento para aqueles que buscam um espaço no competitivo mundo do trabalho.

As Organizações recrutam pessoas que possam atender os requisitos técnicos desejados das funções a serem exercidas e, cada vez mais, além do conhecimento teórico, são valorizadas as questões atitudinais, pois fazem a diferença tanto no processo seletivo, como nas atividades do dia a dia. Estima-se que, de cada três demissões, duas sejam por motivos comportamentais.

Apesar de todas as mudanças tecnológicas ocorridas nos últimos anos nos processos de produção das organizações, algumas características pessoais requeridas continuam,
há décadas, muito valorizadas pelo mercado de trabalho. Na verdade, além das já conhecidas competências, outras se fazem necessárias e exigem uma melhor preparação dos aspirantes às oportunidades que surgirão nos pós pandemia e no novo normal. Entre elas,

  • Ser ético, integro e transparente;
  • Buscar aprendizado contínuo;
  • Ter propósito, resiliência e paixão;
  • Ser comprometido, engajado;
  • Ter capacidade de liderança e de execução;
  • Conseguir se comunicar verbalmente e por escrito;
  • Desenvolver seu lado criativo e inovador;
  • Desenvolver um perfil empreendedor;
  • Ter iniciativa, atitude; Aprender com os erros;
  • Estar aberto às mudanças;
  • Ser colaborativo;
  • Ter empatia;
  • Fazer a diferença na sociedade;
  • Ser responsável;
  • Ter inteligência emocional;

Com relação às profissões que irão se destacar nos próximos anos, estima-se que mais de 80% das profissões de 2030 ainda não existem. Penso que algumas áreas de atuação irão surgir como novas alternativas, enquanto outras irão se modificar para atender às novas demandas da sociedade.  Cito algumas:

  • Tecnologia da informação e da comunicação;
  • Engenharia de dados e cibersegurança;
  • Curadoria educacional;
  • Inteligência artificial;
  • Negociação, marketing e vendas virtuais;
  • Consultoria financeira;
  • Cuidados com a saúde;
  • Meio ambiente;
  • Energias limpas e sustentáveis;
  • Relações internacionais; • Terceira idade;
  • Turismo;
  • Educação;
  • Mídias sociais;
  • Personal home office;
  • Aplicativos pessoais;
  • Algoritmos;
  • Designer digital;
  • Alimentação;
  • Logística.

Nesse período de afastamento social, a atuação de organizações do Terceiro Setor, como o CIEE-RS, têm sido fundamentais para oferecer alternativas inovadoras, como a utilização das redes sociais para auxiliar os jovens a se capacitarem profissionalmente através de  plataformas on line, que viabilizam o  aprendizado de temas pertinentes à sua formação pessoal, profissional e social. Só no estado do Rio Grande do Sul, em um de nossos projetos, o “PALESTRAS ON LINE” já impactamos mais de meio milhão de usuários somente no período mais agudo da pandemia, de março a agosto de 2020.

Há 51 anos atuando no estado, o CIEE-RS já capacitou e inseriu   no   mercado   de trabalho mais de 1.800.000 jovens através dos programas de estágio e de aprendizagem.

Autor: Cláudio Inácio Bins
Executivo Senior do CIEE-RS
Parceiro do IBMerito

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